sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Comunicar não é necessariamente persuadir


O diálogo como base do aprendizado

Há diversas maneiras de exercer o diálogo, uma delas, embora desconhecida, 
possui grande efeito transformador.


O melhor exemplo de comunicação é certamente o diálogo. A palavra compreende duas ou mais pessoas interagindo de forma a construir novos significados com enriquecimento mútuo. Um trabalho de criação em parceria. O diálogo é a base do relacionamento humano, por meio dela o homem experimenta derrotas e constrói gradativamente suas conquistas.
A palavra grega diálogos pode ser traduzida como: através do sentido das palavras. Com o diálogo, a comunicação ocorre no processo de interativo entre pessoas que trocam significados pelas palavras empregadas, mas também pela voz, pelo tom, pelas pausas, pelo corpo, pela expressão facial, pelos gestos, que exprimem os pensamentos e sentimentos.
A Grécia é uma das origens do estudo da comunicação pessoal mais estruturada, que na época denominava-se retórica. No seu livro de mesmo nome, Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) analisa e fundamenta os três gêneros retóricos: o deliberativo (que procura persuadir ou dissuadir), o judiciário (que acusa ou defende) e o epidítico (que elogia ou censura). Essa ênfase na persuasão influenciou todo o mundo ocidental e perdura até hoje, embora Sócrates tenha preferido a maiêutica e Platão tenha discordado da retórica por considerá-la eticamente perigosa.
O conceito moderno de diálogo foi desenvolvido pelo físico David Bohm, com os seguintes objetivos: a) melhorar o relacionamento entre as pessoas; b) observar o processo de produzir pensamentos; c) produzir e compartilhar significados. É um processo que maximiza o aprendizado.
Para David Bohm, de modo geral, são os seguintes, os passos de uma conversação: a) as pessoas percebem coisas e se comunicam; b) as diferenças aparecem; c) surge a necessidade de fazer escolhas, que podem ser orientadas para dois caminhos: 1) discussão controlada; 2) diálogo aberto que objetiva fazer emergir idéias e significados novos e compartilhá-los.
A forma tradicional de diálogo é o debate ou discussão, que naturalmente é necessária e atende uma larga necessidade nos ambientes acadêmicos e profissionais. A questão é que não devemos exercitar apenas esse tipo de comunicação, sob pena de desperdiçar outras oportunidades de coleta de informações e aprendizado.
No exercício do diálogo aberto, os interlocutores não desejam ter seu ponto de vista sobrepujando os demais. A postura íntima é de ganhar, ganhar experiência, aprender algo novo, descobrir outras formas de raciocínio e entendimento. No diálogo aberto, embora não seja determinante haver um vencedor, todos vencem se qualquer um vencer. Ninguém pretende fazer sua visão específica prevalecer, mas enriquecê-la, transformá-la. Não há a ansiedade natural decorrente da possibilidade de ser descoberto um erro no seu ponto de vista. Ao contrário, sempre que qualquer erro é descoberto da parte de qualquer um, todos se sentem ganhadores. É um relacionamento ganha-ganha.
Na discussão, as pessoas não estão abertas ao aprendizado, entram na conversa com objetivos claros de convencer e se houver obstáculos, contestar, negar e se defender. Na melhor das hipóteses, a pessoa seleciona alguns pontos secundários de sua visão que ela estaria disposta a ceder, mas mantém intocável a maior parte das ideias que estruturam seu ponto de vista e qualquer ameaça a elas desencadeia emoções negativas de mágoa, depressão ou raiva.
Trazemos conosco toda uma sorte de presunções, não só sobre política, ou economia, ou religião, mas sobre quaisquer pormenores da vida e nos sentimos mal se não tivermos de pronto uma opinião sobre qualquer assunto. Por extensão, também opinamos sobre o comportamento dos outros e rapidamente concluímos o que um indivíduo deveria fazer, como deveria fazer, geralmente sem informações suficientes para isso.
Essas presunções são defendidas à menor ameaça percebida com alta carga emocional. Ocorre que a pessoa se identifica com uma opinião e se confunde com ela. Se alguém ataca essa opinião, a própria pessoa se sente atacada, procurando se defender ou contra-atacar. Não há o mínimo interesse de aprender.
Para formar sua opinião, a pessoa se valeu de suas próprias experiências, de uma série de decisões mentais de aceita/não aceita, influenciadas pelas fontes das informações e o grau de simpatia e credibilidade que elas inspiraram. Dessa forma, a sua opinião, tende a ser vivenciada como “verdade”, a sua verdade.
Entretanto, as pessoas são diferentes, tiveram vidas diferentes, sensibilidades diferentes e possuem  verdades diferentes. O problema é que a evolução pressupõe a transformação de nossos paradigmas, mas mantemos uma postura tão firme de defesa que dificultamos o processo natural de mudança e aprendizado.
Para você captar bem esses conceitos, experimente! Planeje e realize um diálogo aberto com uma pessoa, depois treine com mais participantes. Nada melhor do que vivenciar para aprender. Escolha um assunto, não muito polêmico em seus primeiros exercícios. Todos os participantes devem ser encarados como iguais e, principalmente, você não deve decidir, não tem e não aceita essa obrigação. Trate a sua opinião como a opinião de outra pessoa. Ela não é você, é tão somente uma opinião que você conheceu. A prioridade maior é entender a outra opinião e partilhar um conteúdo comum. Assuma integralmente uma postura serena de querer aprender. Com isso você estará vivenciando um novo modo de ser, com plena liberdade para ouvir e refletir.
Você não precisa concordar com o ponto de vista do seu interlocutor, basta procurar entendê-lo. Como ele chegou a essa conclusão? Quais fatos ou inferências foram fundamentais? Caso você identifique uma falha, não tripudie de jeito algum! Ao contrário, seja benevolente, procure você mesmo outro argumento. Respeite os sentimentos dos outros. Sinta e busque sentir que você está conectado a outras mentes. Você está somando sua energia a energia dos seus parceiros de comunicação, multiplicando as possibilidades de estar realmente aproveitando o momento para se transformar, estimulando a transformação nos outros e no meio ambiente. Bom diálogo! Ótima comunicação.
Ivan Franzolim