Consolar significa aliviar a dor, a tristeza, o sofrimento
ou as contrariedades de alguém. Podemos fazê-lo pela presença amiga, pelo
acolhimento, por palavras de esperança ou ajudando a pessoa a compreender
melhor aquilo que está vivendo.
No ambiente religioso, entretanto, o consolo frequentemente
adquire uma característica adicional: associa-se à confiança na ação divina, à
proteção espiritual e à esperança de uma intervenção favorável.
Essa linguagem pode ser perfeitamente compreensível dentro
de determinadas tradições religiosas. Mas seria esse também o melhor caminho
para o Espiritismo?
A questão merece reflexão porque, na cultura do movimento
espírita, consolidou-se em muitos lugares a ideia de que uma palestra, para ser
verdadeiramente "consoladora", precisa ser particularmente
evangélica, falar bastante de Jesus, mencionar os bons Espíritos, transmitir
serenidade e esperança e, de alguma maneira, fazer o ouvinte sair
emocionalmente fortalecido.
Nada há de errado em falar de Jesus, esperança, amor ou
auxílio espiritual. O problema começa quando o desejo de consolar conduz, mesmo
involuntariamente, a simplificações ou expectativas que não correspondem
adequadamente aos princípios que o próprio Espiritismo procura ensinar.
Talvez devamos ampliar nossa compreensão do que significa
consolar.
O consolo que nasce da compreensão
Uma pessoa que acaba de perder alguém querido pode encontrar
consolo quando ouve palavras carinhosas sobre a continuidade da vida. Mas
também pode ser profundamente consolada quando compreende racionalmente a
imortalidade do Espírito, a transitoriedade da existência corporal e a
permanência dos vínculos afetivos.
Quem enfrenta uma grande dificuldade pode sentir-se
momentaneamente melhor ouvindo que "Jesus está ao seu lado". Mas
poderá adquirir recursos mais duradouros se compreender as relações entre
livre-arbítrio, provas, consequências de nossas escolhas, solidariedade,
responsabilidade e evolução espiritual.
Uma palestra sobre reencarnação pode ser consoladora.
Uma palestra sobre livre-arbítrio pode ser consoladora.
Uma exposição sobre as leis morais, a evolução do Espírito,
a morte, a mediunidade ou a justiça divina também pode ser profundamente
consoladora.
Pode até incluir humor, quando adequado, pois, valoriza a
parte mais séria.
O consolo não está no tom solene, melodramático, entremeado
de diminutivos carinhosos, nas palavras e clichês emocionais e, menos ainda, na
repetição de expressões religiosas.
Está muitas vezes na descoberta de uma nova maneira de
compreender a vida.
Nesse sentido, o Espiritismo possui uma característica
especialmente valiosa: procura consolar esclarecendo.
Não elimina a dor com uma promessa. Ajuda o indivíduo a
compreendê-la.
Não oferece necessariamente a resposta que gostaríamos de
ouvir. Procura oferecer elementos para que possamos enfrentar melhor a
realidade.
Essa diferença é importante.
Quando o consolo se transforma em promessa
Há expressões aparentemente inocentes que merecem cuidado.
Dizer a alguém:
"Jesus vai resolver."
"Os bons Espíritos não
deixarão isso acontecer."
"Tenha fé que tudo dará
certo."
"Você está protegido."
"Quem segue Jesus não fica
desamparado."
pode proporcionar alívio imediato.
Mas o que acontece se o problema
não for resolvido?
Se a doença continuar?
Se o emprego for perdido?
Se ocorrer uma tragédia?
Se a pessoa pela qual todos
oraram desencarnar?
Uma mensagem destinada a fortalecer poderá então produzir
efeito contrário. A pessoa talvez conclua que não teve fé suficiente, que não
mereceu auxílio ou que foi abandonada pela espiritualidade.
Criamos uma expectativa que a Doutrina Espírita não nos
autorizava a criar.
A Providência divina não significa satisfação de nossos
desejos. A ação dos bons Espíritos não anula o livre-arbítrio, as leis
naturais, as consequências das escolhas humanas ou as circunstâncias próprias
da existência corporal.
Os Espíritos podem aconselhar, inspirar, fortalecer e
auxiliar dentro das possibilidades existentes. Isso é muito diferente de
imaginar uma administração espiritual incumbida de impedir acontecimentos
desagradáveis sempre que alguém possui fé suficiente ou recebe muitas preces.
O consolo espírita precisa conviver com a realidade. E
justamente por isso pode ser mais sólido.
O problema da ideia de "salvação"
Também devemos observar a incorporação, às vezes quase
inconsciente, de conceitos provenientes de outras tradições religiosas.
Um deles é a ideia de salvação.
Ela pode reaparecer no meio espírita com outro vocabulário:
ser protegido após a morte;
não "ir para o Umbral";
ser recebido por bons Espíritos;
merecer assistência espiritual;
ter determinada crença que nos
coloque em situação privilegiada.
A Doutrina Espírita, porém, apresenta outra lógica. Não
somos salvos por adesão religiosa. Não recebemos privilégio espiritual por nos
declararmos espíritas.
O conhecimento aumenta inclusive a responsabilidade de quem
o possui.
A condição do Espírito decorre de seu desenvolvimento
intelectual e moral, das escolhas que realiza, de seus sentimentos, valores,
hábitos e vínculos.
O Espiritismo não deveria criar uma versão própria do antigo
princípio:
"Fora da nossa religião não há salvação."
Kardec combateu exatamente esse exclusivismo ao colocar a
caridade acima da filiação religiosa.
Se aceitarmos seriamente esse princípio, um agnóstico
honesto, solidário e moralmente comprometido pode estar espiritualmente em
melhores condições do que alguém que conhece profundamente a literatura
espírita, mas pouco transformou o próprio comportamento.
É uma conclusão incômoda apenas se confundirmos conhecimento
doutrinário com superioridade espiritual.
Jesus não pertence aos espíritas
Jesus ocupa posição fundamental no pensamento espírita,
particularmente como referência moral.
Isso não significa que precisemos transformá-lo em
instrumento de diferenciação religiosa.
Há uma diferença considerável entre estudar os ensinamentos
de Jesus e recorrer continuamente à sua autoridade para validar afirmações.
"Jesus ensinou."
"Jesus quer."
"Jesus está conosco."
"Jesus conduz o Espiritismo."
Expressões dessa natureza podem adquirir um sentido
devocional muito semelhante ao encontrado em outras religiões cristãs.
E existe um risco adicional: transmitir implicitamente a
ideia de que Jesus mantém uma relação especial com os espíritas.
Seria difícil conciliar isso com a própria universalidade
moral que atribuímos a ele.
Jesus não pode ser apresentado como patrimônio do movimento
espírita.
Muito menos como alguém mais interessado no sucesso de uma
instituição espírita do que no desenvolvimento moral de um católico,
protestante, budista, muçulmano, agnóstico ou de qualquer outro ser humano.
Quanto mais elevada imaginamos uma consciência espiritual,
menos sentido faz atribuir-lhe preferências religiosas semelhantes às nossas.
Enaltecer Jesus não exige aproximá-lo da concepção de Deus
nem utilizar seu nome como selo de autenticidade de nossas próprias opiniões.
Respeitá-lo também significa procurar compreender o
ensinamento sem transformá-lo em recurso retórico.
E os bons Espíritos?
Algo semelhante pode ocorrer em relação aos Espíritos
considerados superiores.
Eles merecem respeito.
Seus ensinamentos merecem estudo.
Suas ideias podem e devem ser examinadas.
Mas existe uma diferença entre respeito e devoção.
Quando personalidades espirituais passam a receber
tratamento próximo da veneração, quando seus nomes funcionam como argumento
definitivo ou quando se compõem formas de culto em torno deles, começamos a nos
afastar do caráter investigativo que esteve na origem do Espiritismo.
Uma afirmação não deveria ser aceita simplesmente porque foi
atribuída a determinado Espírito.
A pergunta fundamental deveria continuar sendo:
Isso faz sentido? É coerente? Está de acordo com os
princípios doutrinários? Resiste à análise racional?
Kardec não construiu seu método sobre a autoridade
individual dos Espíritos, mas justamente sobre comparação, concordância,
análise e controle.
Seria paradoxal transformar posteriormente determinados
Espíritos em autoridades cuja palavra dispense exame.
"Terceira Revelação" e "Consolador Prometido"
Expressões tradicionais como "Terceira Revelação"
e "Consolador Prometido" fazem parte da interpretação histórica do
Espiritismo e podem ser estudadas em seu contexto.
A dificuldade surge quando deixam de ser conceitos a
examinar e passam a funcionar como argumentos de autoridade.
Se dizemos: "O Espiritismo é verdadeiro porque é a
Terceira Revelação", temos um raciocínio circular.
Quem não aceita previamente essa premissa não terá motivo
para aceitar a conclusão.
Da mesma maneira, anunciar simplesmente que o Espiritismo é
"o Consolador Prometido por Jesus" pode ter forte significado para
quem já compartilha dessa interpretação, mas possui pouca força argumentativa
para quem está conhecendo a Doutrina.
Mais produtivo seria demonstrar porque determinados
princípios espíritas podem consolar.
A imortalidade pode consolar.
A reencarnação pode oferecer uma interpretação mais ampla da
existência.
A evolução do Espírito pode renovar a esperança.
A justiça divina pode ser compreendida sob nova perspectiva.
A possibilidade de reencontro com aqueles que amamos pode
amenizar a separação provocada pela morte.
Mas cada uma dessas ideias deve ser apresentada, explicada e
argumentada.
Não deveríamos pedir ao ouvinte que aceite a conclusão antes
de lhe oferecer as razões.
Fé raciocinada também consola
Existe talvez um preconceito involuntário contra a palestra
racional.
Uma exposição considerada muito intelectual, filosófica ou
científica, muitas vezes é vista como menos consoladora. Isso merece revisão.
Razão e sentimento não são adversários. Compreender pode
produzir enorme alívio emocional.
Imagine alguém angustiado com a ideia de que uma pessoa
querida esteja eternamente condenada.
Mostrar racionalmente a incompatibilidade entre penas
eternas e uma concepção de justiça divina baseada em progresso pode ser muito
mais consolador do que pronunciar diversas frases afetuosas.
Imagine alguém acreditando que uma tragédia necessariamente
ocorreu porque "estava programada".
Explicar os papéis do livre-arbítrio, das circunstâncias,
das leis naturais e das consequências humanas poderá libertá-lo de
interpretações deterministas desnecessárias.
Imagine alguém convencido de que todo sofrimento representa
pagamento de uma dívida de outra existência.
Apresentar uma compreensão mais ampla das causas do
sofrimento poderá evitar sentimentos de culpa, resignação passiva ou
julgamentos indevidos sobre o próximo.
O conhecimento pode acalmar.
A compreensão pode fortalecer.
A coerência também consola.
O risco de atrair pelas razões erradas
Aqui chegamos talvez ao ponto mais delicado. Toda
comunicação produz expectativas.
Se apresentarmos o Espiritismo principalmente como religião
que protege, consola emocionalmente e oferece proximidade com Jesus e com os
bons Espíritos, tenderemos a atrair pessoas interessadas justamente nisso.
Depois, naturalmente, essas pessoas reproduzirão aquilo que
aprenderam.
Em poucas gerações de comunicação, podemos transformar uma
doutrina fundamentada em investigação, raciocínio e consequências morais em
mais uma expressão religiosa centrada em devoção, proteção espiritual e
esperança de intervenção sobrenatural.
Isso não ocorre necessariamente por intenção. Pode acontecer
simplesmente porque aquilo que repetimos passa a definir aquilo que somos.
A palestra espírita, portanto, não é atividade secundária. Ela
educa. Forma conceitos. Cria linguagem. Define expectativas.
Influência a maneira pela qual milhares de pessoas
interpretarão suas experiências pessoais.
O palestrante espírita é também responsável pela imagem da
Doutrina criada ou fortalecida nos ouvintes. Ela pode direcionar bem ou propor
desvios que atrasam.
Acolher sem infantilizar
Nada disso significa defender palestras frias, acadêmicas ou
insensíveis.
Há pessoas sofrendo. Há luto, doenças, conflitos familiares,
solidão, medo e insegurança.
A comunicação espírita precisa possuir humanidade.
Pode haver ternura.
Pode haver emoção.
Pode haver esperança.
Pode haver beleza.
O que devemos evitar é substituir o esclarecimento pelo
apelo emocional.
A pessoa que sofre não precisa ser tratada como alguém
incapaz de compreender.
Podemos acolhê-la e, ao mesmo tempo, convidá-la a pensar.
Podemos dizer:
"Não sabemos tudo."
"Não podemos prometer que o
resultado será aquele que desejamos."
"Existem circunstâncias que
não controlamos."
Mas podemos compreender melhor a situação, fortalecer-nos
interiormente e escolher como agir diante dela.
Esse talvez seja um consolo menos espetacular, mas é também
mais responsável.
Consolar para emancipar
Uma das maiores contribuições que o Espiritismo pode
oferecer não está em dizer ao ser humano que alguém resolverá seus problemas.
Está em ajudá-lo a compreender que ele é um Espírito em
processo de desenvolvimento, responsável por suas escolhas, capaz de aprender,
mudar, reparar, amar e prosseguir.
O verdadeiro consolo não precisa criar dependência. Deve produzir
autonomia.
Não precisa aproximar a pessoa de uma instituição. Pode
aproximá-la da compreensão.
Não precisa prometer proteção especial. Pode ensinar
confiança nas leis da vida.
Não precisa dizer que tudo ficará bem da maneira como
desejamos.
Pode mostrar que, mesmo quando as coisas não acontecem como
gostaríamos, continuamos capazes de aprender, agir e crescer.
Talvez possamos resumir assim: consolar não é assegurar
que nada de ruim acontecerá.
É ajudar alguém a possuir recursos intelectuais, morais e
afetivos para enfrentar aquilo que acontecer.
Se a palestra espírita conseguir fazer isso, terá cumprido
uma das mais nobres funções da comunicação.
E talvez possamos compreender de maneira ainda mais profunda
a conhecida expressão "Consolador". Não apenas como aquele que enxuga
lágrimas.
Mas como aquele que esclarece suficientemente para que o ser
humano compreenda melhor por que chora, descubra como enfrentar a situação e
encontre forças para continuar caminhando.
Nesse sentido, uma boa palestra espírita não precisa dizer
ao ouvinte aquilo que ele gostaria de ouvir. Precisa ajudá-lo a fortalecer sua vontade e acreditar em um futuro melhor.
E, compreender, pode ser uma das formas mais
duradouras e efetivas de consolo.

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