quinta-feira, 28 de maio de 2026

Os Espíritas e “A Rebelião das Massas”

 - um exercício de questionamento


Ao ler A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset (1930), é difícil não perceber como certas observações feitas há quase um século continuam atuais. O filósofo espanhol chama atenção para um tipo humano satisfeito consigo mesmo, pouco inclinado ao exame crítico, muito seguro de suas opiniões e, ao mesmo tempo, pouco disposto a aprofundar o conhecimento. Esse retrato, naturalmente, não se aplica a todos, nem em todos os contextos, mas oferece uma chave útil para observar comportamentos coletivos. No meio espírita, tal leitura pode servir como um espelho incômodo, porém necessário.

O primeiro ponto digno de reflexão é o risco da repetição sem elaboração. Em muitos ambientes espíritas, há pessoas sinceramente dedicadas, bem-intencionadas e há décadas vinculadas às casas. No entanto, também é possível perceber uma tendência a repetir fórmulas, frases feitas e interpretações já conhecidas, sem a correspondente atualização do pensamento. Lê-se Kardec, cita-se Kardec, mas nem sempre se estuda Kardec com profundidade. Repetem-se trechos de obras consagradas, mas sem o esforço de reexaminar seu sentido, sua lógica e suas consequências morais. A Doutrina, então, corre o risco de ser conservada como linguagem de identificação, e não como caminho vivo de compreensão.

Essa observação se torna ainda mais importante quando lembramos que muitas pessoas no meio espírita possuem formação universitária, boa capacidade intelectual em suas profissões e, ainda assim, no campo doutrinário, preferem o conforto da síntese pronta ao trabalho paciente da reflexão. Saber muito em uma área não garante maturidade em outra. Ortega critica justamente o indivíduo que, embora limitado em seu campo, sente-se autorizado a opinar sobre tudo. No plano espírita, isso aparece quando alguém domina um autor, uma prática ou uma expressão mediúnica e, a partir daí, presume ter resposta para todo o conjunto da Doutrina, da história, da administração das casas, da assistência social e até da vida do movimento. A segurança excessiva costuma ser um sinal de fragilidade, não de força.

Outro ponto relevante é a assistência social. Em sua melhor expressão, ela é uma forma nobre de amparo, uma ponte para a dignidade humana. Entretanto, como toda prática institucional, pode desviar-se de sua finalidade mais alta. Há casos em que a ajuda ao necessitado se converte, ainda que inconscientemente, numa forma de produzir reconhecimento, gratidão e até prestígio moral para quem ajuda. Nessa situação, o assistido pode deixar de ser alguém que é fortalecido para a vida e passar a ocupar, sem perceber, um lugar de dependência simbólica. A caridade, então, já não visa apenas socorrer e promover; visa também confirmar a própria imagem de bondade da instituição ou de seus trabalhadores. Isso não invalida a assistência social, mas pede vigilância ética. O verdadeiro amparo não humilha, não prende, não infantiliza; ele devolve ao outro a possibilidade de caminhar.

Também merece atenção a ausência de avaliação do próprio progresso. Em muitos lugares, há estudo, reunião, palestra, trabalho e atividade constante. Mas quantas vezes se pergunta, com sinceridade: “Estamos compreendendo melhor?”, “Estamos nos tornando pessoas melhores?”, “O estudo está nos ajudando a pensar, servir e agir com mais consciência?” Sem essa avaliação, a rotina pode virar hábito; o hábito, costume; e o costume, tradição vazia. O movimento espírita, quando não se examina, pode continuar ativo e, ao mesmo tempo, permanecer imóvel. Há muito movimento exterior e pouco esforço de transformação interior. E esse talvez seja um dos riscos mais sutis da vida institucional: funcionar bem sem antes de crescer de fato.

A repetição dos mesmos trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo e de O Livro dos Espíritos, em si, não é defeito. Essas obras são basilares e merecem constante leitura. O problema surge quando a repetição substitui o aprofundamento sugerindo pleno conhecimento. A leitura passa a ser apenas ritual; a explicação, apenas fórmula; o comentário, apenas eco. O texto deixa de ser encontro com ideias e raciocínios para se tornar frase de ocasião. Nesse ponto, a Doutrina corre o risco de ser reduzida a um repertório de passagens conhecidas, repetidas para reafirmar pertencimento, mas não para ampliar entendimento. Kardec não escreveu para criar um sistema de citações decorativas; escreveu para provocar raciocínio, comparação, exame e responsabilidade moral.

Em paralelo, as redes sociais trouxeram novo cenário. Elas ampliam a voz de todos e, ao mesmo tempo, favorecem a tentação de falar sobre tudo com rapidez e pouca cautela. O meio espírita não ficou imune a isso. Multiplicam-se vídeos, comentários, teses e interpretações feitas com segurança impressionante, ainda que nem sempre acompanhadas de método, estudo sólido e uma base de humildade intelectual. Cria-se, assim, a figura do “entendedor universal”, que fala com firmeza e autoconfiança sobre doutrina, mediunidade, organização de centros, história do espiritismo e até temas científicos e filosóficos, sem reconhecer sua capacidade de falhar. Lembrando que o Espiritismo não foi revelado pronto, com todas as respostas. Ortega talvez diria que esse é o retrato de uma espécie de arrogância moderna: o domínio da opinião imediata com aparência de conhecimento.

Há, portanto, um paralelo possível entre a crítica de Ortega y Gasset e certos comportamentos espíritas: a preferência pela repetição, a resistência ao aprofundamento, a segurança excessiva nas próprias ideias, a assistência social que por vezes busca mais reconhecimento do que emancipação, a falta de avaliação do crescimento e o uso superficial da Doutrina como linguagem de identidade. Isso não significa condenar o movimento, mas chamá-lo ao exame. Toda tradição viva precisa de autocrítica para não se transformar em mera conservação.

Talvez a questão central seja esta: o Espiritismo, no Brasil, está sendo mais vivido como esforço de compreensão ou como hábito cultural? Está formando pessoas mais lúcidas, mais humildes, mais responsáveis, mais servidoras? Ou está apenas preservando uma forma conhecida de religiosidade, com forte carga emocional, mas pouca renovação intelectual? O questionamento é legítimo e necessário. A fidelidade doutrinária não deve ser confundida com repetição automática. Ser fiel a Kardec não é repetir palavras; é conservar o método, a seriedade, o espírito de exame e a finalidade moral de sua obra.

Por isso, a leitura de Ortega pode ser útil ao espírita não como arma de crítica externa, mas como convite à lucidez. A Doutrina pede coração, sim; pede consolo, sim; pede fraternidade, sem dúvida. Mas pede também pensamento, método, estudo e responsabilidade. Quando uma comunidade se acostuma apenas a sentir, sem pensar; a repetir, sem examinar; a ajudar, sem emancipar; a falar, sem aprender, ela corre o risco de se tornar confortável demais para si mesma. E comunidades confortáveis em demasia costumam envelhecer por dentro antes de envelhecer por fora.

Talvez seja esse o ponto mais fértil da comparação: a necessidade de evitar que o Espiritismo se torne apenas uma herança recebida e pouco elaborada. A Doutrina espírita, em sua essência, não foi feita para adormecer consciências, mas para despertá-las. Se a crítica de Ortega nos ajuda a perceber zonas de acomodação, então ela terá cumprido um papel precioso. Não para diminuir o valor da tradição, mas para devolvê-la ao seu sentido mais vivo: pensar melhor para viver melhor.

No Espiritismo brasileiro, o risco não é apenas o de perder frequência ou trabalhadores. É o de manter a aparência de continuidade enquanto se enfraquece a capacidade de pensar, estudar, servir e renovar.

Ivan Franzolim