- um exercício de questionamento
Ao ler A
Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset (1930), é difícil não perceber
como certas observações feitas há quase um século continuam atuais. O filósofo
espanhol chama atenção para um tipo humano satisfeito consigo mesmo, pouco
inclinado ao exame crítico, muito seguro de suas opiniões e, ao mesmo tempo,
pouco disposto a aprofundar o conhecimento. Esse retrato, naturalmente, não se
aplica a todos, nem em todos os contextos, mas oferece uma chave útil para
observar comportamentos coletivos. No meio espírita, tal leitura pode servir
como um espelho incômodo, porém necessário.
O primeiro
ponto digno de reflexão é o risco da repetição sem elaboração. Em muitos
ambientes espíritas, há pessoas sinceramente dedicadas, bem-intencionadas e há
décadas vinculadas às casas. No entanto, também é possível perceber uma
tendência a repetir fórmulas, frases feitas e interpretações já conhecidas, sem
a correspondente atualização do pensamento. Lê-se Kardec, cita-se Kardec, mas
nem sempre se estuda Kardec com profundidade. Repetem-se trechos de obras
consagradas, mas sem o esforço de reexaminar seu sentido, sua lógica e suas
consequências morais. A Doutrina, então, corre o risco de ser conservada como
linguagem de identificação, e não como caminho vivo de compreensão.
Essa
observação se torna ainda mais importante quando lembramos que muitas pessoas
no meio espírita possuem formação universitária, boa capacidade intelectual em
suas profissões e, ainda assim, no campo doutrinário, preferem o conforto da
síntese pronta ao trabalho paciente da reflexão. Saber muito em uma área
não garante maturidade em outra. Ortega critica justamente o indivíduo que,
embora limitado em seu campo, sente-se autorizado a opinar sobre tudo. No plano
espírita, isso aparece quando alguém domina um autor, uma prática ou uma
expressão mediúnica e, a partir daí, presume ter resposta para todo o conjunto
da Doutrina, da história, da administração das casas, da assistência social e
até da vida do movimento. A segurança excessiva costuma ser um sinal de
fragilidade, não de força.
Outro ponto
relevante é a assistência social. Em sua melhor expressão, ela é uma
forma nobre de amparo, uma ponte para a dignidade humana. Entretanto, como toda
prática institucional, pode desviar-se de sua finalidade mais alta. Há casos em
que a ajuda ao necessitado se converte, ainda que inconscientemente, numa forma
de produzir reconhecimento, gratidão e até prestígio moral para quem ajuda.
Nessa situação, o assistido pode deixar de ser alguém que é fortalecido para a
vida e passar a ocupar, sem perceber, um lugar de dependência simbólica. A
caridade, então, já não visa apenas socorrer e promover; visa também confirmar
a própria imagem de bondade da instituição ou de seus trabalhadores. Isso não
invalida a assistência social, mas pede vigilância ética. O verdadeiro amparo
não humilha, não prende, não infantiliza; ele devolve ao outro a possibilidade
de caminhar.
Também merece
atenção a ausência de avaliação do próprio progresso. Em muitos lugares,
há estudo, reunião, palestra, trabalho e atividade constante. Mas quantas vezes
se pergunta, com sinceridade: “Estamos compreendendo melhor?”, “Estamos
nos tornando pessoas melhores?”, “O estudo está nos ajudando a pensar, servir e
agir com mais consciência?” Sem essa avaliação, a rotina pode virar hábito; o
hábito, costume; e o costume, tradição vazia. O movimento espírita, quando não
se examina, pode continuar ativo e, ao mesmo tempo, permanecer imóvel. Há muito
movimento exterior e pouco esforço de transformação interior. E esse talvez
seja um dos riscos mais sutis da vida institucional: funcionar bem sem antes
de crescer de fato.
A repetição
dos mesmos trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo e de O Livro
dos Espíritos, em si, não é defeito. Essas obras são basilares e merecem
constante leitura. O problema surge quando a repetição substitui o
aprofundamento sugerindo pleno conhecimento. A leitura passa a ser apenas
ritual; a explicação, apenas fórmula; o comentário, apenas eco. O texto
deixa de ser encontro com ideias e raciocínios para se tornar frase de ocasião.
Nesse ponto, a Doutrina corre o risco de ser reduzida a um repertório de
passagens conhecidas, repetidas para reafirmar pertencimento, mas não
para ampliar entendimento. Kardec não escreveu para criar um sistema de
citações decorativas; escreveu para provocar raciocínio, comparação, exame e
responsabilidade moral.
Em paralelo,
as redes sociais trouxeram novo cenário. Elas ampliam a voz de todos e, ao
mesmo tempo, favorecem a tentação de falar sobre tudo com rapidez e pouca
cautela. O meio espírita não ficou imune a isso. Multiplicam-se vídeos,
comentários, teses e interpretações feitas com segurança impressionante, ainda
que nem sempre acompanhadas de método, estudo sólido e uma base de humildade
intelectual. Cria-se, assim, a figura do “entendedor universal”, que
fala com firmeza e autoconfiança sobre doutrina, mediunidade, organização de
centros, história do espiritismo e até temas científicos e filosóficos, sem reconhecer
sua capacidade de falhar. Lembrando que o Espiritismo não foi revelado pronto,
com todas as respostas. Ortega talvez diria que esse é o retrato de uma espécie
de arrogância moderna: o domínio da opinião imediata com aparência de
conhecimento.
Há, portanto,
um paralelo possível entre a crítica de Ortega y Gasset e certos comportamentos
espíritas: a preferência pela repetição, a resistência ao aprofundamento, a
segurança excessiva nas próprias ideias, a assistência social que por vezes
busca mais reconhecimento do que emancipação, a falta de avaliação do
crescimento e o uso superficial da Doutrina como linguagem de identidade. Isso
não significa condenar o movimento, mas chamá-lo ao exame. Toda tradição
viva precisa de autocrítica para não se transformar em mera conservação.
Talvez a
questão central seja esta: o Espiritismo, no Brasil, está sendo mais vivido
como esforço de compreensão ou como hábito cultural? Está formando pessoas mais
lúcidas, mais humildes, mais responsáveis, mais servidoras? Ou está apenas
preservando uma forma conhecida de religiosidade, com forte carga emocional,
mas pouca renovação intelectual? O questionamento é legítimo e necessário. A
fidelidade doutrinária não deve ser confundida com repetição automática. Ser
fiel a Kardec não é repetir palavras; é conservar o método, a seriedade, o
espírito de exame e a finalidade moral de sua obra.
Por isso, a
leitura de Ortega pode ser útil ao espírita não como arma de crítica externa,
mas como convite à lucidez. A Doutrina pede coração, sim; pede consolo, sim;
pede fraternidade, sem dúvida. Mas pede também pensamento, método, estudo e
responsabilidade. Quando uma comunidade se acostuma apenas a sentir, sem
pensar; a repetir, sem examinar; a ajudar, sem emancipar; a falar, sem
aprender, ela corre o risco de se tornar confortável demais para si mesma. E
comunidades confortáveis em demasia costumam envelhecer por dentro antes de
envelhecer por fora.
Talvez seja
esse o ponto mais fértil da comparação: a necessidade de evitar que o
Espiritismo se torne apenas uma herança recebida e pouco elaborada. A Doutrina
espírita, em sua essência, não foi feita para adormecer consciências, mas para
despertá-las. Se a crítica de Ortega nos ajuda a perceber zonas de acomodação,
então ela terá cumprido um papel precioso. Não para diminuir o valor da
tradição, mas para devolvê-la ao seu sentido mais vivo: pensar melhor para
viver melhor.
No Espiritismo brasileiro, o risco não é apenas o de perder frequência ou trabalhadores. É o de manter a aparência de continuidade enquanto se enfraquece a capacidade de pensar, estudar, servir e renovar.
Ivan Franzolim
