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segunda-feira, 13 de julho de 2026

A motivação sob a ótica espírita

Por que algumas pessoas conseguem manter o entusiasmo diante das dificuldades enquanto outras desanimam com facilidade?
O que impulsiona alguém a estudar, trabalhar, servir ao próximo ou perseverar diante dos desafios?


Imagem gerada pelo ChatGPT Plus

A Psicologia procura responder a essas perguntas há mais de um século e desenvolveu diversas teorias sobre a motivação. Embora existam diferenças entre elas, todas procuram compreender por que pensamos, sentimos e agimos da maneira como agimos.

Podemos definir motivação como o conjunto de fatores que impulsiona uma pessoa a iniciar, manter ou modificar um comportamento. Esses fatores podem ser conscientes ou inconscientes, internos ou externos. Sob a ótica espírita, entretanto, essa compreensão pode ser ampliada.

A motivação faz parte da Lei do Progresso?

O Espiritismo ensina que todos os Espíritos foram criados simples e ignorantes, destinados ao aperfeiçoamento contínuo. A Lei do Progresso é uma das leis divinas que impulsionam toda a criação para a evolução.

Podemos supor, portanto, que existe no Espírito uma tendência natural ao crescimento, ao aprendizado e à realização. Essa disposição íntima talvez seja uma das raízes mais profundas da motivação humana.

Nem sempre percebemos conscientemente esse impulso, mas ele parece manifestar-se na busca constante por conhecimento, felicidade, amor, justiça e desenvolvimento.

Mesmo quando alguém permanece estacionado durante anos, cedo ou tarde a própria vida o convida a seguir adiante.

Nossa história também nos influencia

Cada Espírito traz consigo uma longa experiência acumulada ao longo de muitas existências.

Embora a lembrança consciente do passado permaneça temporariamente esquecida durante a encarnação, as aquisições morais e intelectuais permanecem registradas no Espírito.

Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas demonstram facilidade para determinadas atividades, interesses muito específicos ou vocações aparentemente espontâneas.

Nossa motivação, portanto, não nasce apenas das circunstâncias atuais, mas também daquilo que já construímos ao longo da caminhada evolutiva.

Somos influenciados e também influenciamos

A Doutrina Espírita acrescenta outro elemento importante: nenhum pensamento permanece isolado.

Vivemos permanentemente em intercâmbio mental com os encarnados e desencarnados.

A questão 459 de O Livro dos Espíritos afirma que os Espíritos influem em nossos pensamentos muito mais do que imaginamos.

Essa influência, porém, não elimina nosso livre-arbítrio. Ela ocorre por sintonia. Quanto mais elevados forem nossos sentimentos, maior será nossa afinidade com pensamentos e inspirações construtivas.

Da mesma forma, nossos próprios pensamentos influenciam as pessoas com quem convivemos.

Todos colaboramos, consciente ou inconscientemente, para estimular ou desestimular aqueles que caminham ao nosso lado.

  • Um elogio sincero pode despertar talentos adormecidos.
  • Uma palavra de incentivo pode impedir alguém de desistir.
  • Uma crítica destrutiva pode bloquear iniciativas durante muito tempo.

Talvez por isso Paulo de Tarso tenha recomendado: 
"Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras." (Hebreus 10:24)

Essa recomendação revela que motivar o próximo também é uma forma de caridade.

A força do pensamento

Diversos psicólogos descrevem a motivação como uma espécie de energia disponível para agir.

Embora utilizem referenciais diferentes, essa ideia encontra certa analogia com a visão espírita de que o pensamento possui natureza dinâmica e produz efeitos sobre nós mesmos e sobre aqueles com quem estabelecemos sintonia.

O passe constitui um exemplo interessante dessa interação. Através dele ocorre uma transmissão de fluidos e recursos psíquicos que auxiliam temporariamente o reequilíbrio do assistido receptivo, favorecendo melhores condições emocionais para enfrentar suas dificuldades.

Entretanto, nenhum passe substitui a transformação interior. Ele fortalece, mas quem decide e direciona o seu caminhar é o próprio indivíduo.

A motivação mais duradoura nasce dentro de nós

Todos precisamos do apoio das pessoas. O carinho da família, o incentivo dos amigos, o exemplo dos bons líderes e a convivência fraterna representam importantes fontes de motivação.

Mas existe uma motivação ainda mais sólida: aquela que nasce da compreensão do sentido da vida.

Quando entendemos que somos Espíritos imortais em processo permanente de aperfeiçoamento, os fracassos deixam de ser derrotas definitivas e passam a representar oportunidades de aprendizado.

A esperança deixa de depender exclusivamente das circunstâncias externas. Passa a fazer parte da própria maneira de enxergar a existência.

É por isso que tantos trabalhadores voluntários permanecem décadas dedicando-se ao bem, muitas vezes sem qualquer reconhecimento. Sua maior motivação encontra-se no ideal que abraçaram.

A educação pelo amor

Durante muito tempo acreditou-se que o sofrimento era o principal instrumento de aprendizado. Hoje compreendemos melhor que a dor, por si só, não é suficiente para transformar alguém. Ela costuma funcionar como um alerta, um convite à reflexão.

A verdadeira mudança ocorre quando o Espírito compreende, aceita e incorpora novos valores.

A Lei de Causa e Efeito não deve ser entendida como um sistema de punições, mas como um processo educativo. Cada ação produz consequências naturais que favorecem nosso aprendizado.

À medida que o Espírito demonstra ter assimilado determinada lição, deixa de necessitar das experiências que anteriormente serviam para despertá-lo.

Como um pai amoroso, Deus não mantém indefinidamente um filho nas mesmas dificuldades quando ele já aprendeu aquilo que precisava aprender.

Nosso dever de motivar

Se nossas palavras, pensamentos e atitudes influenciam o ambiente ao nosso redor, temos enorme responsabilidade na construção de relações mais saudáveis.

Podemos contribuir para fortalecer ou enfraquecer a coragem das pessoas. Podemos ampliar a esperança ou alimentar o desânimo.

A empatia torna-se, então, uma ferramenta indispensável. Compreender que cada pessoa enfrenta desafios invisíveis ajuda-nos a julgar menos, ouvir mais e acolher melhor.

Quem sofre de enfermidades emocionais, quem enfrenta conflitos familiares ou quem reage com agressividade talvez esteja apenas demonstrando, da única forma que consegue, sua necessidade de compreensão e de amor.

Conclusão

Talvez uma das maiores contribuições do Espiritismo para o estudo da motivação seja mostrar que ela não depende exclusivamente das circunstâncias materiais nem das condições psicológicas do momento.

Ela também se alimenta da compreensão do propósito da vida, da confiança nas leis divinas, da influência recíproca entre os Espíritos e da certeza de que todo esforço no bem jamais se perde.

Ao motivarmos alguém para estudar, trabalhar, servir ou perseverar, não estamos apenas oferecendo apoio emocional.

Estamos colaborando com a própria Lei do Progresso. E talvez exista poucas formas de caridade tão silenciosas e tão eficazes quanto despertar, em outro Espírito, a coragem de continuar caminhando.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Caridade Está Mudando

Novas formas de fazer a caridade com competência e bons resultados


A forma de exercer a caridade entre os espíritas é algo positivo que pode melhorar ainda mais. Muito espírita ainda pensa que deve fazer tudo escondido. Assim, deixa pela manhã no orfanato, 20 quilos de farinha de trigo. Certamente essa pessoa está com a consciência tranquila, satisfeita por ter feito uma boa ação. O orfanato, no entanto, estava precisando de sal, óleo e margarina e tinha tanta farinha que elas se estragaram, criaram bicho. Podemos até pensar que o problema é do orfanato que deve gerenciar a falta ou excesso de alimentos trocando, por exemplo, com outra instituição. Um pouco cômodo da nossa parte. Toda a responsabilidade para os outros e nenhuma para nós. Ora, a caridade pressupõe o uso inteligente dos recursos para atender a todos com eficácia, sem desperdício, inclusive do tempo dos voluntários, que quantas vezes é consumido em ações menos expressivas, deixando de lado tarefas mais produtivas e prioritárias.

Devemos fazer o bem no nível em que estamos capacitados a fazer

É comum o voluntário passar um dia inteiro em uma instituição sem ter feito quase nada produtivo e com qualidade. Esta última, coitada, é costumeiramente deixada de lado, pois tanto o voluntário como a instituição tendem a pensar equivocadamente, que nada se pode exigir de uma doação (cavalo dado não se olha os dentes).

É, muita coisa precisa mudar e felizmente já está mudando para melhor. No princípio pode ser apenas mais um modismo, pois a partir dos anos 90 ficou chique ser voluntário. Nas rodas sociais acabam tendo destaque positivo quem faz algum trabalho voluntário. Para conseguir um bom emprego, muitas vezes é fator relevante.

É o começo. Não podemos esperar que todos iniciem um novo trabalho com um claro entendimento dos problemas sociais, do senso de responsabilidade com a própria sociedade do ponto de vista econômico, social, moral e espiritual. Isso nós alcançamos gradativamente e o espiritismo também tem muito a contribuir, mas não só ele.

Passamos da fase de fazer qualquer bem. Devemos fazer o bem no nível em que estamos capacitados a fazer, sem desprezar nenhuma oportunidade. É preciso ter comprometimento, técnicas, métodos, estratégias, metas, indicadores, avaliações e redefinições. Sobretudo, é necessário buscar sempre os melhores resultados.
No tempo de Kardec, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, incentivava apenas a caridade individual que deveria ser feita de forma mais velada possível. Apenas quando o espiritismo penetrou no Brasil é que a forma de fazer a caridade encontrou a sinergia do trabalho em grupo, que oferece mais recursos e gera mais estímulos para a motivação das pessoas em favor do próximo.

O foco excessivamente religioso tende a abafar o raciocínio e a análise, gerando paradigmas quase intransponíveis. Quantas vezes escutamos líderes espíritas dizendo que o “importante é fazer o bem”. Com isso quer justificar que fazer o bem está na frente de qualquer outra coisa, como o estudo da doutrina, por exemplo. Que o bem deve ser feito de qualquer jeito, pois o que vale é a intenção. Um tanto pior são alguns líderes confusos por seus próprios sofismas, que não aceitam introduzir na instituição espírita nenhuma técnica de administração, planejamento, marketing, qualidade, pois entendem que elas podem deturpar o espiritismo. Falácia. Todas as técnicas, métodos, doutrinas podem ser bem ou mal empregadas. Até na bíblia encontramos passagens mostrando um Deus sanguinário, vingativo que só pode ser agradado com obediência cega, sacrifícios de animais, sangue e até oferecimento de bebidas alcoólicas. É preciso discernimento.

Precisamos continuar a usar também o conhecimento espírita como fundamento de nossas ações, mas sem desprezar tantos outros conhecimentos e experiências que podem contribuir aos nossos propósitos de progredir e fazer progredir com o mínimo de sofrimento e a máxima participação na construção de uma vida melhor para todos. Fora da educação não há caridade eficaz.

Texto retirado do livro Comunicação & Discernimento, editora EME.