Uma reflexão espírita sobre
apostas, rifas, bingos e a responsabilidade das instituições
Há uma frase frequentemente atribuída a Rui Barbosa segundo
a qual, “no jogo, o que menos se perde é o dinheiro”. Independentemente da
confirmação de sua autoria, a sentença contém uma verdade que merece reflexão:
nas apostas, podem ser perdidos também o equilíbrio emocional, a confiança
familiar, a disciplina, o tempo, a serenidade e, em casos mais graves, o
domínio sobre a própria vontade.
Diante da rápida expansão das apostas pela internet, cabe
perguntar: como os espíritas e, especialmente, as instituições espíritas devem
encarar o jogo a dinheiro?
A resposta não deveria nascer de um moralismo condenatório,
mas da análise racional de seus princípios, de suas consequências e dos valores
que desejamos cultivar.
Nem todo jogo é uma aposta
É necessário começar por uma distinção.
Existem jogos voltados ao lazer, à convivência, ao
desenvolvimento do raciocínio ou à atividade física. O xadrez, os jogos
educativos, as brincadeiras infantis e muitas competições esportivas podem
exercitar a inteligência, a estratégia, a cooperação, a disciplina e o respeito
às regras.
Outra coisa é o jogo em que se arrisca dinheiro ou algum bem
na expectativa de receber um prêmio cujo resultado depende predominantemente do
acaso ou de acontecimentos que o participante não controla.
A própria legislação brasileira define aposta como o ato de
colocar determinado valor em risco na expectativa de obter um prêmio.
Portanto, o problema não está simplesmente no ato de jogar.
Está na associação entre o jogo, o risco financeiro, a esperança de
enriquecimento e a exploração econômica das perdas dos participantes.
Por que as pessoas apostam?
Seria simplista afirmar que todas as pessoas jogam apenas
para ganhar dinheiro sem trabalhar. As motivações podem ser diversas:
curiosidade, diversão, influência de amigos, propaganda, desejo de emoção, fuga
das preocupações, esperança de resolver dificuldades financeiras ou necessidade
crescente de repetir uma experiência estimulante.
Apesar dessa variedade, quase todas as apostas monetárias
apresentam uma promessa comum: obter, por meio da sorte, aquilo que normalmente
exigiria trabalho, planejamento, economia e perseverança.
É justamente aí que surge o conflito com a visão espírita.
A Doutrina Espírita ensina que o progresso é conquistado
pelo exercício das faculdades humanas. A inteligência, a vontade, a disciplina
e o trabalho são instrumentos de desenvolvimento espiritual. Não estamos na
Terra apenas para receber resultados, mas para aprender a produzi-los
responsavelmente.
A Lei do Trabalho, apresentada em O Livro dos Espíritos,
não se limita ao emprego remunerado. Ela compreende toda atividade útil por
meio da qual o ser humano desenvolve suas capacidades, atende às necessidades
da vida e participa do progresso coletivo.
O trabalho não é uma punição divina. É instrumento de
realização e aperfeiçoamento.
A antiga interpretação bíblica de que o trabalho seria um
castigo, pode ter contribuído, ao longo dos séculos, para que muitas pessoas o
enxergassem como um mal do qual seria desejável escapar. Na perspectiva
espírita, entretanto, trabalhar dignamente é colaborar com a criação,
transformar a realidade e transformar a si mesmo.
A esperança transferida para o acaso
Uma sociedade demonstra fragilidade quando parcelas de sua
população passam a depositar mais esperança na aposta do que em sua
inteligência, em sua capacidade profissional e em seu esforço organizado.
O problema se torna ainda mais grave quando pessoas utilizam
nas apostas recursos necessários à alimentação, à moradia, à saúde ou à
manutenção dos dependentes.
Nas operações de jogo, o ganho de poucos é necessariamente
sustentado pela perda de muitos. O prêmio não surge espontaneamente. Ele é
formado pelos valores entregues por uma multidão de participantes que nada
receberá.
Trata-se, portanto, de uma relação predominantemente
ganha-perde.
Essa estrutura é diferente da relação econômica saudável, na
qual alguém oferece um produto, um conhecimento ou um serviço e recebe uma
remuneração proporcional ao valor produzido. Numa relação produtiva,
idealmente, ambas as partes podem ser beneficiadas. No jogo, o benefício do
ganhador depende da frustração dos demais. Somos indiferentes a isso?
Quando uma população passa a acreditar que a principal
oportunidade de melhorar de vida está numa combinação de números, num resultado
esportivo ou numa tela de celular, algo está errado não apenas com o indivíduo,
mas também com a organização social.
Livre-arbítrio ou poder do acaso?
Do ponto de vista espírita, a vida não é governada por sorte
ou azar, ou pelo acaso. Vivemos sob leis naturais, enfrentando circunstâncias
relacionadas às nossas necessidades evolutivas, às consequências de nossas
escolhas e às condições coletivas da sociedade em que estamos inseridos.
Isso não significa que todos os acontecimentos estejam
previamente determinados, nem que a Providência intervenha para decidir quem
ganhará uma loteria.
Seria pouco razoável imaginar que Deus dependesse de um
sorteio para auxiliar o planejamento de uma existência ou oferecer
oportunidades de progresso a determinada pessoa.
A Providência manifesta-se por meio das leis divinas, das
oportunidades de aprendizado, da inspiração para o bem, dos encontros
necessários e das possibilidades de ação. Não precisa substituir o esforço
humano por um bilhete premiado.
Até mesmo quando alguém ganha, a fortuna inesperada não
representa necessariamente uma bênção. Pode tornar-se prova difícil,
responsabilidade não compreendida ou ocasião de desequilíbrio.
O ponto central não é saber se uma pessoa poderá ganhar, mas
perguntar o que está sendo cultivado enquanto ela espera ganhar.
Confiança em si mesma? Perseverança? Planejamento?
Solidariedade? Ou expectativa de que o acaso resolva aquilo que ela não
consegue ou não deseja construir gradualmente?
“Mas eu ajudaria muitas pessoas”
É comum alguém justificar o desejo de ganhar dizendo que
usaria o dinheiro para ajudar familiares, instituições assistenciais ou pessoas
necessitadas.
A intenção de auxiliar é meritória. Contudo, uma finalidade
nobre não torna automaticamente adequado qualquer meio utilizado para
alcançá-la.
Desejar fazer o bem com o prêmio não elimina o fato de que o
prêmio é constituído pelas perdas de milhares ou milhões de outras pessoas —
entre as quais podem estar indivíduos endividados, famílias vulneráveis e
pessoas com dificuldade de controlar o impulso de apostar.
A conhecida pergunta ética continua válida: os fins
justificam os meios?
Sob a ótica espírita, intenção, meio empregado e
consequência precisam ser examinados conjuntamente.
Não basta desejar fazer o bem. É necessário procurar
realizá-lo por meios coerentes com o próprio bem.
O novo alcance das apostas
As apostas sempre existiram. O que mudou foi sua presença
permanente no cotidiano.
Com o telefone celular, a aposta tornou-se disponível
durante as 24 horas do dia. Notificações, bônus, recompensas variáveis,
publicidade intensa e apostas realizadas em tempo real incentivam a repetição e
a permanência nas plataformas.
O Ministério da Saúde já trata os problemas relacionados às
apostas como questão de saúde pública.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que o transtorno do
jogo envolve perda de controle, prioridade crescente concedida à aposta e
continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. Também alerta
para prejuízos financeiros, familiares, profissionais e sociais, que podem
atingir não somente quem aposta, mas diversas pessoas ao seu redor.
Não estamos, portanto, diante de uma preocupação religiosa
isolada. Trata-se de um problema humano, familiar, econômico e de saúde
coletiva.
Da pequena rifa à normalização do jogo
Alguém poderá argumentar que uma rifa beneficente ou um
bingo ocasional realizado numa instituição espírita não pode ser comparado às
grandes plataformas de apostas.
Naturalmente, as dimensões são diferentes.
Entretanto, o princípio educativo merece consideração.
A pequena rifa talvez não produza, isoladamente, uma
dependência. Mas ajuda a tornar natural a ideia de que contribuir é mais
atraente quando existe a possibilidade de receber um prêmio.
Em lugar de estimular a doação consciente, fortalece-se a
contribuição interessada.
A pessoa não oferece simplesmente porque compreende a
necessidade da instituição e deseja participar de sua manutenção. Ela compra
porque poderá ganhar alguma coisa.
É assim que rifas e bingos, muitas vezes, sobrepujam as
doações simples e honrosas. O prêmio parece fornecer uma motivação que a
solidariedade ainda não conseguiu despertar.
Mas qual deveria ser a tarefa educativa de uma casa
espírita: adaptar-se indefinidamente às fragilidades humanas ou auxiliar as
pessoas a superá-las?
Quando uma instituição facilita o ingresso numa forma
aparentemente inofensiva de aposta, pode contribuir, ainda que
involuntariamente, para a normalização de um comportamento hoje explorado em
escala muito maior pelas plataformas digitais.
A casa espírita não é responsável por todas as escolhas
futuras de seus frequentadores. Contudo, é responsável pelos valores que
apresenta, pelos hábitos que reforça e pelos exemplos que oferece.
A legalidade não encerra a questão moral
Loterias, apostas esportivas e outras modalidades podem ser
autorizadas ou regulamentadas pelo Estado. Parte de sua arrecadação também pode
ser destinada a finalidades sociais.
Isso, porém, não elimina a necessidade de análise moral.
Aquilo que é legal não é necessariamente recomendável para
uma instituição orientada por princípios educativos e espirituais.
O Estado pode regulamentar uma atividade para reduzir danos,
combater ilegalidades ou arrecadar recursos. A casa espírita possui outra
finalidade: contribuir para a formação moral, o esclarecimento da consciência e
o desenvolvimento do autocontrole.
A pergunta da instituição não deve ser apenas “é
permitido?”, mas também “é coerente com aquilo que ensinamos?”.
Paulo de Tarso ofereceu um critério que permanece atual:
Em outra passagem, complementa:
O primeiro critério é individual: isso me convém?
O segundo é coletivo: isso ajuda a construir algo melhor?
O compromisso de quem incentiva
Abrir um bar não torna alguém automaticamente responsável
por todas as escolhas de seus clientes. Da mesma forma, promover uma rifa não
significa causar diretamente todos os problemas associados ao jogo.
Entretanto, nenhuma atividade humana é moralmente neutra
quando influencia comportamentos.
Quem organiza, divulga, patrocina ou normaliza determinada
prática participa, em algum grau, de suas consequências previsíveis. Essa
responsabilidade deve ser avaliada com equilíbrio, sem acusações pessoais, mas
também sem ingenuidade.
No pensamento espírita, somos responsáveis não apenas pelo
mal que praticamos diretamente, mas também pelo bem que poderíamos realizar e
pelas influências que conscientemente exercemos.
Se sabemos que determinada prática pode incentivar a crença
no ganho fácil, dificultar o autocontrole ou aproximar pessoas vulneráveis do
universo das apostas, torna-se prudente procurar outros caminhos.
Não se trata de anunciar castigos espirituais ou
compromissos futuros de forma assustadora. Trata-se de reconhecer a lei de
causa e efeito como princípio educativo: toda ação produz consequências em nós,
nos outros e no ambiente social.
Como manter uma casa espírita sem rifas e bingos?
A dificuldade financeira das instituições é real. Contas de
água, energia, manutenção, impostos, tecnologia, limpeza e conservação não
desaparecem apenas porque o trabalho é voluntário.
Entretanto, a falta de recursos não obriga a casa espírita a
recorrer ao jogo.
Entre as alternativas possíveis estão as contribuições
espontâneas, os associados mantenedores, as campanhas transparentes, os
bazares, as feiras de livros usados, as livrarias, as lanchonetes, os eventos
culturais, a prestação de serviços compatíveis com a finalidade institucional e
outras atividades regularmente organizadas.
Algumas dessas alternativas exigem mais planejamento e
dedicação. Talvez seja exatamente esse o ponto.
O meio aparentemente mais fácil nem sempre é o mais
educativo.
O Evangelho recorda simbolicamente a necessidade de entrar
pela porta estreita. A porta estreita não significa sofrimento procurado
inutilmente, mas escolha consciente do caminho mais coerente, ainda que demande
maior esforço.
Uma campanha de doação bem explicada pode, no início,
arrecadar menos que uma rifa. Em compensação, educa para a responsabilidade,
fortalece o sentimento de pertencimento e permite que os participantes
compreendam quanto custa manter a instituição que utilizam.
A rifa diz: “Contribua porque você pode ganhar”.
A doação consciente diz: “Contribua porque este trabalho
também é seu”.
A segunda mensagem é mais difícil, mas espiritualmente muito
mais valiosa.
Educar sem radicalismo e sem comodismo
A posição espírita diante das apostas não precisa ser
extremista.
Não cabe vigiar a vida particular das pessoas,
constrangê-las por terem comprado um bilhete ou classificá-las moralmente por
uma conduta isolada. Cada consciência possui seu ritmo, suas experiências e
suas dificuldades.
Ao mesmo tempo, tolerância não deve ser confundida com
acomodação.
O autocontrole precisa ser desenvolvido gradualmente.
Pequenas escolhas exercitam a vontade, assim como pequenos desperdícios revelam
hábitos interiores.
Quebrar e jogar fora um simples clipe pode representar quase
nada em termos econômicos. Contudo, a decisão de preservá-lo pode expressar o
princípio de não desperdiçar. O valor material é mínimo; a intenção educativa é
que importa.
Da mesma maneira, uma aposta de pequeno valor pode parecer
irrelevante. Mas convém perguntar qual disposição íntima estamos alimentando: a
confiança no esforço ou a expectativa do ganho fortuito?
A evolução humana pode ser observada também na transformação
das formas de diversão. Houve tempos em que multidões se entretinham assistindo
a gladiadores, perseguições e mortes em arenas. Muitas dessas práticas foram
abandonadas à medida que a sensibilidade moral se desenvolveu.
Isso não significa que todo lazer deva desaparecer ou que os
espíritos elevados vivam numa seriedade permanente. Significa apenas que, à
medida que evoluímos, podemos encontrar satisfação crescente na arte, no
conhecimento, na convivência, na criação, no serviço e até na alegria de um
trabalho bem realizado.
O lazer também pode evoluir.
Uma responsabilidade especial das instituições espíritas
A casa espírita não existe apenas para transmitir
informações sobre reencarnação, mediunidade ou vida espiritual. Ela deve
colaborar para a formação de pessoas mais conscientes, responsáveis e capazes
de governar a si mesmas.
Seria contraditório falar sobre autocontrole,
responsabilidade, trabalho e lei de causa e efeito e, ao mesmo tempo, utilizar
apostas como instrumento habitual de arrecadação.
Além de evitar a promoção de rifas e bingos, as instituições
podem desenvolver ações educativas sobre planejamento financeiro, consumo
responsável, endividamento, influência da publicidade e riscos das apostas
digitais.
Podem também acolher, sem julgamento, as pessoas e famílias
que enfrentam problemas relacionados ao jogo, encaminhando-as, quando
necessário, para atendimento profissional.
A orientação doutrinária não substitui o tratamento médico
ou psicológico. Pode, entretanto, oferecer apoio moral, ambiente fraterno e
estímulo para a reconstrução da disciplina e da esperança.
Confiar mais no ser humano
Talvez este seja o ponto essencial.
As pessoas devem ser encorajadas a confiar mais em sua
inteligência, em sua capacidade de aprender, em seu trabalho, em sua
perseverança e no apoio solidário da comunidade — não no poder do acaso.
Uma sociedade saudável não promete que todos enriquecerão.
Procura oferecer condições para que todos possam trabalhar, aprender, cooperar
e viver com dignidade.
Uma instituição espírita coerente não alimenta ilusões de
ganho fácil. Ajuda a construir esperança realista, baseada no esforço, na
solidariedade e no desenvolvimento das potencialidades humanas.
Precisamos educar a nós mesmos para estarmos em condições de
educar pelo exemplo.
Nenhuma casa espírita resolverá sozinha o problema social
das apostas. Mas cada uma pode decidir se contribuirá para sua normalização ou
para uma cultura de maior responsabilidade.
No jogo, talvez o dinheiro seja realmente o menor prejuízo.
Podem perder-se a vontade, o discernimento, a confiança no
trabalho e a capacidade de esperar pelo resultado natural do próprio esforço.
E essas perdas custam muito mais caro. Vamos fazer a nossa parte!
