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quarta-feira, 29 de julho de 2026

No jogo, o dinheiro pode ser o menor prejuízo

 


Uma reflexão espírita sobre apostas, rifas, bingos e a responsabilidade das instituições

Há uma frase frequentemente atribuída a Rui Barbosa segundo a qual, “no jogo, o que menos se perde é o dinheiro”. Independentemente da confirmação de sua autoria, a sentença contém uma verdade que merece reflexão: nas apostas, podem ser perdidos também o equilíbrio emocional, a confiança familiar, a disciplina, o tempo, a serenidade e, em casos mais graves, o domínio sobre a própria vontade.

Diante da rápida expansão das apostas pela internet, cabe perguntar: como os espíritas e, especialmente, as instituições espíritas devem encarar o jogo a dinheiro?

A resposta não deveria nascer de um moralismo condenatório, mas da análise racional de seus princípios, de suas consequências e dos valores que desejamos cultivar.

Nem todo jogo é uma aposta

É necessário começar por uma distinção.

Existem jogos voltados ao lazer, à convivência, ao desenvolvimento do raciocínio ou à atividade física. O xadrez, os jogos educativos, as brincadeiras infantis e muitas competições esportivas podem exercitar a inteligência, a estratégia, a cooperação, a disciplina e o respeito às regras.

Outra coisa é o jogo em que se arrisca dinheiro ou algum bem na expectativa de receber um prêmio cujo resultado depende predominantemente do acaso ou de acontecimentos que o participante não controla.

A própria legislação brasileira define aposta como o ato de colocar determinado valor em risco na expectativa de obter um prêmio.

Portanto, o problema não está simplesmente no ato de jogar. Está na associação entre o jogo, o risco financeiro, a esperança de enriquecimento e a exploração econômica das perdas dos participantes.

Por que as pessoas apostam?

Seria simplista afirmar que todas as pessoas jogam apenas para ganhar dinheiro sem trabalhar. As motivações podem ser diversas: curiosidade, diversão, influência de amigos, propaganda, desejo de emoção, fuga das preocupações, esperança de resolver dificuldades financeiras ou necessidade crescente de repetir uma experiência estimulante.

Apesar dessa variedade, quase todas as apostas monetárias apresentam uma promessa comum: obter, por meio da sorte, aquilo que normalmente exigiria trabalho, planejamento, economia e perseverança.

É justamente aí que surge o conflito com a visão espírita.

A Doutrina Espírita ensina que o progresso é conquistado pelo exercício das faculdades humanas. A inteligência, a vontade, a disciplina e o trabalho são instrumentos de desenvolvimento espiritual. Não estamos na Terra apenas para receber resultados, mas para aprender a produzi-los responsavelmente.

A Lei do Trabalho, apresentada em O Livro dos Espíritos, não se limita ao emprego remunerado. Ela compreende toda atividade útil por meio da qual o ser humano desenvolve suas capacidades, atende às necessidades da vida e participa do progresso coletivo.

O trabalho não é uma punição divina. É instrumento de realização e aperfeiçoamento.

A antiga interpretação bíblica de que o trabalho seria um castigo, pode ter contribuído, ao longo dos séculos, para que muitas pessoas o enxergassem como um mal do qual seria desejável escapar. Na perspectiva espírita, entretanto, trabalhar dignamente é colaborar com a criação, transformar a realidade e transformar a si mesmo.

A esperança transferida para o acaso

Uma sociedade demonstra fragilidade quando parcelas de sua população passam a depositar mais esperança na aposta do que em sua inteligência, em sua capacidade profissional e em seu esforço organizado.

O problema se torna ainda mais grave quando pessoas utilizam nas apostas recursos necessários à alimentação, à moradia, à saúde ou à manutenção dos dependentes.

Nas operações de jogo, o ganho de poucos é necessariamente sustentado pela perda de muitos. O prêmio não surge espontaneamente. Ele é formado pelos valores entregues por uma multidão de participantes que nada receberá.

Trata-se, portanto, de uma relação predominantemente ganha-perde.

Essa estrutura é diferente da relação econômica saudável, na qual alguém oferece um produto, um conhecimento ou um serviço e recebe uma remuneração proporcional ao valor produzido. Numa relação produtiva, idealmente, ambas as partes podem ser beneficiadas. No jogo, o benefício do ganhador depende da frustração dos demais. Somos indiferentes a isso?

Quando uma população passa a acreditar que a principal oportunidade de melhorar de vida está numa combinação de números, num resultado esportivo ou numa tela de celular, algo está errado não apenas com o indivíduo, mas também com a organização social.

Livre-arbítrio ou poder do acaso?

Do ponto de vista espírita, a vida não é governada por sorte ou azar, ou pelo acaso. Vivemos sob leis naturais, enfrentando circunstâncias relacionadas às nossas necessidades evolutivas, às consequências de nossas escolhas e às condições coletivas da sociedade em que estamos inseridos.

Isso não significa que todos os acontecimentos estejam previamente determinados, nem que a Providência intervenha para decidir quem ganhará uma loteria.

Seria pouco razoável imaginar que Deus dependesse de um sorteio para auxiliar o planejamento de uma existência ou oferecer oportunidades de progresso a determinada pessoa.

A Providência manifesta-se por meio das leis divinas, das oportunidades de aprendizado, da inspiração para o bem, dos encontros necessários e das possibilidades de ação. Não precisa substituir o esforço humano por um bilhete premiado.

Até mesmo quando alguém ganha, a fortuna inesperada não representa necessariamente uma bênção. Pode tornar-se prova difícil, responsabilidade não compreendida ou ocasião de desequilíbrio.

O ponto central não é saber se uma pessoa poderá ganhar, mas perguntar o que está sendo cultivado enquanto ela espera ganhar.

Confiança em si mesma? Perseverança? Planejamento? Solidariedade? Ou expectativa de que o acaso resolva aquilo que ela não consegue ou não deseja construir gradualmente?

“Mas eu ajudaria muitas pessoas”

É comum alguém justificar o desejo de ganhar dizendo que usaria o dinheiro para ajudar familiares, instituições assistenciais ou pessoas necessitadas.

A intenção de auxiliar é meritória. Contudo, uma finalidade nobre não torna automaticamente adequado qualquer meio utilizado para alcançá-la.

Desejar fazer o bem com o prêmio não elimina o fato de que o prêmio é constituído pelas perdas de milhares ou milhões de outras pessoas — entre as quais podem estar indivíduos endividados, famílias vulneráveis e pessoas com dificuldade de controlar o impulso de apostar.

A conhecida pergunta ética continua válida: os fins justificam os meios?

Sob a ótica espírita, intenção, meio empregado e consequência precisam ser examinados conjuntamente.

Não basta desejar fazer o bem. É necessário procurar realizá-lo por meios coerentes com o próprio bem.

O novo alcance das apostas

As apostas sempre existiram. O que mudou foi sua presença permanente no cotidiano.

Com o telefone celular, a aposta tornou-se disponível durante as 24 horas do dia. Notificações, bônus, recompensas variáveis, publicidade intensa e apostas realizadas em tempo real incentivam a repetição e a permanência nas plataformas.

O Ministério da Saúde já trata os problemas relacionados às apostas como questão de saúde pública.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que o transtorno do jogo envolve perda de controle, prioridade crescente concedida à aposta e continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. Também alerta para prejuízos financeiros, familiares, profissionais e sociais, que podem atingir não somente quem aposta, mas diversas pessoas ao seu redor.

Não estamos, portanto, diante de uma preocupação religiosa isolada. Trata-se de um problema humano, familiar, econômico e de saúde coletiva.

Da pequena rifa à normalização do jogo

Alguém poderá argumentar que uma rifa beneficente ou um bingo ocasional realizado numa instituição espírita não pode ser comparado às grandes plataformas de apostas.

Naturalmente, as dimensões são diferentes.

Entretanto, o princípio educativo merece consideração.

A pequena rifa talvez não produza, isoladamente, uma dependência. Mas ajuda a tornar natural a ideia de que contribuir é mais atraente quando existe a possibilidade de receber um prêmio.

Em lugar de estimular a doação consciente, fortalece-se a contribuição interessada.

A pessoa não oferece simplesmente porque compreende a necessidade da instituição e deseja participar de sua manutenção. Ela compra porque poderá ganhar alguma coisa.

É assim que rifas e bingos, muitas vezes, sobrepujam as doações simples e honrosas. O prêmio parece fornecer uma motivação que a solidariedade ainda não conseguiu despertar.

Mas qual deveria ser a tarefa educativa de uma casa espírita: adaptar-se indefinidamente às fragilidades humanas ou auxiliar as pessoas a superá-las?

Quando uma instituição facilita o ingresso numa forma aparentemente inofensiva de aposta, pode contribuir, ainda que involuntariamente, para a normalização de um comportamento hoje explorado em escala muito maior pelas plataformas digitais.

A casa espírita não é responsável por todas as escolhas futuras de seus frequentadores. Contudo, é responsável pelos valores que apresenta, pelos hábitos que reforça e pelos exemplos que oferece.

A legalidade não encerra a questão moral

Loterias, apostas esportivas e outras modalidades podem ser autorizadas ou regulamentadas pelo Estado. Parte de sua arrecadação também pode ser destinada a finalidades sociais.

Isso, porém, não elimina a necessidade de análise moral.

Aquilo que é legal não é necessariamente recomendável para uma instituição orientada por princípios educativos e espirituais.

O Estado pode regulamentar uma atividade para reduzir danos, combater ilegalidades ou arrecadar recursos. A casa espírita possui outra finalidade: contribuir para a formação moral, o esclarecimento da consciência e o desenvolvimento do autocontrole.

A pergunta da instituição não deve ser apenas “é permitido?”, mas também “é coerente com aquilo que ensinamos?”.

Paulo de Tarso ofereceu um critério que permanece atual:

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.”
(I Coríntios, 6:12)

Em outra passagem, complementa:

“Tudo é lícito, mas nem tudo edifica.”
(I Coríntios, 10:23)

O primeiro critério é individual: isso me convém?

O segundo é coletivo: isso ajuda a construir algo melhor?

O compromisso de quem incentiva

Abrir um bar não torna alguém automaticamente responsável por todas as escolhas de seus clientes. Da mesma forma, promover uma rifa não significa causar diretamente todos os problemas associados ao jogo.

Entretanto, nenhuma atividade humana é moralmente neutra quando influencia comportamentos.

Quem organiza, divulga, patrocina ou normaliza determinada prática participa, em algum grau, de suas consequências previsíveis. Essa responsabilidade deve ser avaliada com equilíbrio, sem acusações pessoais, mas também sem ingenuidade.

No pensamento espírita, somos responsáveis não apenas pelo mal que praticamos diretamente, mas também pelo bem que poderíamos realizar e pelas influências que conscientemente exercemos.

Se sabemos que determinada prática pode incentivar a crença no ganho fácil, dificultar o autocontrole ou aproximar pessoas vulneráveis do universo das apostas, torna-se prudente procurar outros caminhos.

Não se trata de anunciar castigos espirituais ou compromissos futuros de forma assustadora. Trata-se de reconhecer a lei de causa e efeito como princípio educativo: toda ação produz consequências em nós, nos outros e no ambiente social.

Como manter uma casa espírita sem rifas e bingos?

A dificuldade financeira das instituições é real. Contas de água, energia, manutenção, impostos, tecnologia, limpeza e conservação não desaparecem apenas porque o trabalho é voluntário.

Entretanto, a falta de recursos não obriga a casa espírita a recorrer ao jogo.

Entre as alternativas possíveis estão as contribuições espontâneas, os associados mantenedores, as campanhas transparentes, os bazares, as feiras de livros usados, as livrarias, as lanchonetes, os eventos culturais, a prestação de serviços compatíveis com a finalidade institucional e outras atividades regularmente organizadas.

Algumas dessas alternativas exigem mais planejamento e dedicação. Talvez seja exatamente esse o ponto.

O meio aparentemente mais fácil nem sempre é o mais educativo.

O Evangelho recorda simbolicamente a necessidade de entrar pela porta estreita. A porta estreita não significa sofrimento procurado inutilmente, mas escolha consciente do caminho mais coerente, ainda que demande maior esforço.

Uma campanha de doação bem explicada pode, no início, arrecadar menos que uma rifa. Em compensação, educa para a responsabilidade, fortalece o sentimento de pertencimento e permite que os participantes compreendam quanto custa manter a instituição que utilizam.

A rifa diz: “Contribua porque você pode ganhar”.

A doação consciente diz: “Contribua porque este trabalho também é seu”.

A segunda mensagem é mais difícil, mas espiritualmente muito mais valiosa.

Educar sem radicalismo e sem comodismo

A posição espírita diante das apostas não precisa ser extremista.

Não cabe vigiar a vida particular das pessoas, constrangê-las por terem comprado um bilhete ou classificá-las moralmente por uma conduta isolada. Cada consciência possui seu ritmo, suas experiências e suas dificuldades.

Ao mesmo tempo, tolerância não deve ser confundida com acomodação.

O autocontrole precisa ser desenvolvido gradualmente. Pequenas escolhas exercitam a vontade, assim como pequenos desperdícios revelam hábitos interiores.

Quebrar e jogar fora um simples clipe pode representar quase nada em termos econômicos. Contudo, a decisão de preservá-lo pode expressar o princípio de não desperdiçar. O valor material é mínimo; a intenção educativa é que importa.

Da mesma maneira, uma aposta de pequeno valor pode parecer irrelevante. Mas convém perguntar qual disposição íntima estamos alimentando: a confiança no esforço ou a expectativa do ganho fortuito?

A evolução humana pode ser observada também na transformação das formas de diversão. Houve tempos em que multidões se entretinham assistindo a gladiadores, perseguições e mortes em arenas. Muitas dessas práticas foram abandonadas à medida que a sensibilidade moral se desenvolveu.

Isso não significa que todo lazer deva desaparecer ou que os espíritos elevados vivam numa seriedade permanente. Significa apenas que, à medida que evoluímos, podemos encontrar satisfação crescente na arte, no conhecimento, na convivência, na criação, no serviço e até na alegria de um trabalho bem realizado.

O lazer também pode evoluir.

Uma responsabilidade especial das instituições espíritas

A casa espírita não existe apenas para transmitir informações sobre reencarnação, mediunidade ou vida espiritual. Ela deve colaborar para a formação de pessoas mais conscientes, responsáveis e capazes de governar a si mesmas.

Seria contraditório falar sobre autocontrole, responsabilidade, trabalho e lei de causa e efeito e, ao mesmo tempo, utilizar apostas como instrumento habitual de arrecadação.

Além de evitar a promoção de rifas e bingos, as instituições podem desenvolver ações educativas sobre planejamento financeiro, consumo responsável, endividamento, influência da publicidade e riscos das apostas digitais.

Podem também acolher, sem julgamento, as pessoas e famílias que enfrentam problemas relacionados ao jogo, encaminhando-as, quando necessário, para atendimento profissional.

A orientação doutrinária não substitui o tratamento médico ou psicológico. Pode, entretanto, oferecer apoio moral, ambiente fraterno e estímulo para a reconstrução da disciplina e da esperança.

Confiar mais no ser humano

Talvez este seja o ponto essencial.

As pessoas devem ser encorajadas a confiar mais em sua inteligência, em sua capacidade de aprender, em seu trabalho, em sua perseverança e no apoio solidário da comunidade — não no poder do acaso.

Uma sociedade saudável não promete que todos enriquecerão. Procura oferecer condições para que todos possam trabalhar, aprender, cooperar e viver com dignidade.

Uma instituição espírita coerente não alimenta ilusões de ganho fácil. Ajuda a construir esperança realista, baseada no esforço, na solidariedade e no desenvolvimento das potencialidades humanas.

Precisamos educar a nós mesmos para estarmos em condições de educar pelo exemplo.

Nenhuma casa espírita resolverá sozinha o problema social das apostas. Mas cada uma pode decidir se contribuirá para sua normalização ou para uma cultura de maior responsabilidade.

No jogo, talvez o dinheiro seja realmente o menor prejuízo.

Podem perder-se a vontade, o discernimento, a confiança no trabalho e a capacidade de esperar pelo resultado natural do próprio esforço.

E essas perdas custam muito mais caro. Vamos fazer a nossa parte!