Uma visão espírita sobre o livre-arbítrio e as consequências de nossas escolhas
A vida encarnada é uma experiência de grande complexidade.
Cada um de nós é um Espírito que iniciou sua trajetória em
um passado distante e que, por meio de numerosas experiências, vem
desenvolvendo a inteligência, a consciência, a sensibilidade e a capacidade de
escolher.
O livre-arbítrio não surge pronto e completo. Ele se amplia
gradualmente, à medida que o Espírito compreende melhor a si mesmo, as pessoas
com quem convive e as consequências de suas ações. Quanto maior o
discernimento, maior a liberdade; mas também maior a responsabilidade.
Vivemos e aprendemos tanto no mundo espiritual quanto
durante as encarnações. Em cada etapa, encontramos situações compatíveis com
nossas necessidades de desenvolvimento. Recebemos orientações, convivemos com
pessoas que nos desafiam ou auxiliam e enfrentamos circunstâncias que colocam à
prova nossas capacidades intelectuais e morais.
Pensar, agir, responder a um estímulo ou tomar uma
iniciativa são atos que praticamos continuamente. Cada escolha modifica, ainda
que discretamente, nossa situação presente e futura. Também pode influenciar as
pessoas próximas e, em alguma medida, o ambiente social em que vivemos.
Podemos compreender melhor esse processo recorrendo à
metáfora do jogo de xadrez.
No início de uma partida, as peças estão distribuídas em um
tabuleiro limitado a 64 casas. Apesar desse espaço restrito, existem
incontáveis possibilidades de movimentação. Cada lance altera a posição das
peças, abre alguns caminhos, fecha outros e influencia as jogadas seguintes.
Na vida acontece algo semelhante.
Não escolhemos todas as condições de nossa existência.
Encontramos um corpo, uma família, uma época, uma cultura, determinadas
facilidades e certas dificuldades. Esse conjunto representa, de algum modo, a
posição inicial da partida.
Dentro dessas circunstâncias, porém, podemos pensar, avaliar
e escolher.
o xadrez, até o movimento aparentemente modesto de um peão
pode produzir consequências vários lances depois. Uma jogada simples pode
proteger uma peça, abrir uma passagem, criar uma oportunidade ou provocar uma
dificuldade inesperada.
Também na vida, pequenos atos podem alcançar resultados
maiores do que imaginamos.
Um sorriso sincero dirigido a alguém no elevador talvez lhe
proporcione um momento de acolhimento. Uma palavra de incentivo pode fortalecer
uma pessoa insegura. Uma atitude respeitosa pode interromper uma sequência de
irritações que já vinha sendo transmitida de pessoa para pessoa.
Da mesma forma, uma resposta ríspida ou carregada de
desprezo pode aumentar o sofrimento de alguém que já enfrenta dificuldades.
Isso não significa que sejamos responsáveis por todas as reações alheias. Cada
pessoa possui sua própria liberdade e sua própria história. Entretanto, somos
responsáveis pela qualidade moral da influência que oferecemos.
A metáfora do xadrez, portanto, tem seus limites. Na
partida, enfrentamos um adversário e procuramos dar xeque-mate. Na vida, nosso
objetivo não é derrotar as outras pessoas. O verdadeiro desafio é vencer nossas
próprias limitações: o egoísmo, o orgulho, a impulsividade, a indiferença e os
hábitos que retardam nosso progresso.
Nosso objetivo é aprender a pensar e agir em maior harmonia com as leis divinas, que, segundo o Espiritismo, encontram-se inscritas na consciência.
Pensamento, sentimento e influência
Antes de agir, geralmente pensamos, ainda que de maneira
muito rápida. Nossos pensamentos também se associam aos sentimentos e às
disposições morais que cultivamos.
O sentimento pode dar ao pensamento uma direção construtiva,
indiferente ou prejudicial. Pensamentos de compreensão favorecem atitudes mais
equilibradas. Pensamentos alimentados pela irritação, pelo ressentimento ou
pelo orgulho tendem a encontrar justificativas para ações da mesma natureza.
Além disso, não pensamos isoladamente. Influenciamos e somos
influenciados pelas pessoas e pelos Espíritos com os quais mantemos afinidade.
Isso não elimina nossa liberdade. Uma influência pode
sugerir, estimular ou reforçar determinada tendência, mas a decisão continua
sendo nossa, de acordo com o grau de consciência e resistência que possuímos.
Por isso, usar bem o livre-arbítrio não é simples.
Se fosse suficiente conhecer o bem para praticá-lo, todos
seríamos moralmente superiores desde as primeiras lições. A transformação exige
experiência, repetição, esforço, reflexão, reparação dos equívocos e formação
de novos hábitos.
As encarnações constituem, sob esse ponto de vista, um amplo processo educativo. Todos avançam, embora em ritmos diferentes. Alguns aprendem mais rapidamente determinadas lições; outros necessitam repeti-las muitas vezes. Ninguém, porém, está condenado à estagnação permanente.
O exercício da empatia
Um recurso importante para melhorar nossas escolhas é
exercitar a empatia.
Podemos imaginar que somos, por alguns momentos, advogados
de defesa da pessoa que estamos prestes a julgar. Isso não significa considerar
correta qualquer atitude, mas procurar compreender as circunstâncias que talvez
tenham contribuído para ela.
Ao entrar em um ônibus, por exemplo, percebemos que o
motorista parece dirigir de maneira brusca. A reação imediata pode ser de
irritação.
Nesse momento, podemos interromper o julgamento automático e
refletir.
Não conhecemos a vida daquele trabalhador. Talvez esteja
cansado, preocupado com problemas familiares, pressionado pelos horários ou
submetido diariamente a um trânsito caótico. Nada disso torna correta uma
condução imprudente, mas ajuda a perceber que existem fatores que desconhecemos.
Na posição dele, agiríamos melhor? Talvez sim, talvez não.
Não temos como saber.
Essa pausa interior já representa um exercício do
livre-arbítrio. Em vez de simplesmente reagir, escolhemos observar, compreender
e, se for necessário manifestar alguma reclamação, fazê-lo com equilíbrio e
respeito.
Em outra situação, pedimos um alimento em uma lanchonete e
somos atendidos por uma jovem que demonstra gentileza e alegria.
Talvez não percebamos o esforço existente naquele gesto. Ela
pode estar há horas trabalhando em pé, enfrentando ruídos, cansaço,
preocupações pessoais e clientes impacientes. Mesmo assim, oferece um sorriso.
Podemos reconhecer essa atitude e agradecer sinceramente.
A vida é formada por esses pequenos lances.
Alguns parecem insignificantes, mas ajudam a construir hábitos, relações e tendências. Cada escolha prepara, em certa medida, a escolha seguinte. Aos poucos, vamos formando o nosso caráter e modificando a posição que ocupamos no grande tabuleiro das experiências humanas.
Conduzir conscientemente a própria vida
O livre-arbítrio não significa poder fazer tudo o que
desejamos. Significa escolher dentro das condições em que nos encontramos e
assumir, progressivamente, as consequências de nossas decisões.
Também não significa caminhar sem auxílio. Recebemos
ensinamentos, inspirações, exemplos, advertências e oportunidades de recomeço.
Contudo, ninguém pode realizar em nosso lugar a transformação que nos compete.
Viver é aprender.
O conhecimento espírita pode nos ajudar a perceber melhor as
oportunidades educativas presentes nas situações mais comuns. Cada encontro,
dificuldade, conflito ou gesto de bondade pode tornar-se uma lição.
No xadrez, um bom jogador não movimenta uma peça pensando
apenas no instante presente. Ele procura compreender a posição, prever
consequências e escolher o lance mais adequado.
Na vida, também somos convidados a agir com maior
consciência.
Não conseguiremos prever todos os resultados, nem
acertaremos sempre. Podemos, contudo, examinar nossas intenções, considerar o
bem dos envolvidos, aprender com os erros e procurar fazer melhor na
oportunidade seguinte.
Assim, pouco a pouco, deixamos de ser conduzidos apenas
pelos impulsos e passamos a participar mais conscientemente da construção de
nosso próprio caminho. Ótima jornada consciente!
