Mudamos
muito desde 1993. Mas será que também mudamos a maneira de pensar nossas instituições? Publiquei um artigo intitulado A
reengenharia no movimento espírita. Naquela época, a palavra “reengenharia”
estava em evidência no mundo empresarial. Michael Hammer e outros estudiosos da
administração defendiam uma ideia aparentemente simples, mas bastante
desafiadora: em vez de apenas aperfeiçoar aquilo que já fazemos, deveríamos ter
coragem de perguntar se continuaríamos fazendo daquela maneira caso
começássemos tudo novamente.
Vieram as organizações que aprendem, gestão por processos,
inovação, transformação digital, metodologias ágeis e, mais recentemente,
inteligência artificial. Os nomes mudaram. A pergunta fundamental, entretanto,
permanece:
Se hoje tivéssemos de organizar uma instituição espírita
a partir do zero, conhecendo tudo o que aprendemos nas últimas décadas,
faríamos exatamente tudo igual?
Provavelmente não.
E talvez esteja aí uma reflexão importante para o movimento
espírita.
Mudar sem mudar a Doutrina
É necessário fazer desde logo uma distinção.
Repensar a organização das instituições espíritas não
significa modificar os fundamentos do Espiritismo. Princípios doutrinários não
devem ser adaptados simplesmente para acompanhar costumes, conquistar público
ou parecer modernos.
Estamos falando de outra coisa. Podemos preservar princípios
e modificar métodos. Podemos conservar finalidades e aperfeiçoar instrumentos.
Aliás, uma organização que conhece claramente sua finalidade
consegue distinguir melhor aquilo que deve preservar daquilo que pode — e
algumas vezes precisa — mudar.
O problema começa quando confundimos tradição doutrinária
com tradição administrativa.
Uma atividade pode existir há quarenta ou cinquenta anos e
continuar sendo excelente. Mas sua antiguidade, por si só, não demonstra sua
eficácia.
A pergunta não deveria ser apenas:
- “Há quanto tempo fazemos assim?”
- “Por que fazemos assim?”
- “Para quem fazemos?”
- “Que resultados estamos obtendo?”
- “Existe atualmente uma maneira melhor de atingir o mesmo objetivo?”
O perigo de aperfeiçoar aquilo que já deveria ter sido repensado
Esse talvez tenha sido o aspecto mais provocador da antiga
reengenharia.
Ela não propunha apenas fazer melhor. Propunha perguntar se
aquilo ainda deveria ser feito daquela forma.
Há diferença.
Podemos informatizar uma ficha que ninguém consulta.
Podemos criar um aplicativo para reproduzir um procedimento
desnecessariamente complicado.
Podemos transmitir pela internet uma atividade cujo formato
não desperta mais interesse.
Podemos utilizar inteligência artificial para produzir mais
rapidamente aquilo que poucas pessoas desejam receber.
Tudo isso pode representar modernização tecnológica sem
representar verdadeira inovação.
Seria como colocar um motor novo em um veículo sem antes
verificar se estamos seguindo pela estrada correta.
A tecnologia atual, especialmente a inteligência artificial,
torna essa questão ainda mais importante. Nunca tivemos tantos instrumentos
capazes de aumentar a produtividade, facilitar comunicações, analisar
informações e eliminar tarefas repetitivas.
Mas a tecnologia responde principalmente ao “como”.
Antes dela vêm perguntas humanas:
- “Por quê?”
- “Para quê?”
- “Para quem?”
O Centro Espírita visto como um conjunto
No artigo de 1993 eu chamava a atenção para outro problema:
a divisão excessiva das atividades em departamentos.
Cada grupo pode funcionar muito bem isoladamente:
atendimento fraterno, estudo, palestras, mediunidade, assistência social,
evangelização, comunicação, administração, biblioteca e tantas outras
atividades.
Mas quem observa a experiência da pessoa como um todo?
Uma criatura pode chegar ao Centro Espírita enfrentando um
momento difícil, assistir durante anos às reuniões públicas e permanecer
praticamente desconhecida da instituição.
Pode não saber que existem grupos de estudo.
Pode nunca ter sido estimulada a ler Kardec.
Pode desconhecer oportunidades de voluntariado.
Pode não encontrar caminhos adequados para transformar
gradualmente uma posição de simples frequentadora em participante consciente do
próprio processo de aprendizado.
Não se trata, evidentemente, de controlar pessoas. Muito
menos de determinar o caminho que cada uma deverá seguir. O livre-arbítrio deve
ser respeitado.
Mas respeitar a liberdade não significa deixar de informar,
orientar, acolher e oferecer possibilidades.
Talvez devêssemos pensar menos em departamentos e mais em
jornadas.
- A jornada de quem chega.
- A jornada de quem procura consolo.
- A jornada de quem deseja compreender o Espiritismo.
- A jornada de quem quer estudar seriamente.
- A jornada do jovem.
- A jornada do voluntário.
- A jornada de quem envelheceu conosco.
Quando mudamos o foco da atividade para a pessoa, algumas
estruturas começam naturalmente a ser questionadas.
O frequentador de hoje não é o de 1993
Também não podemos ignorar que a sociedade mudou
profundamente.
Na década de 1990 praticamente não havia internet para o
público brasileiro. Não existiam redes sociais como as conhecemos, smartphones,
reuniões virtuais, plataformas de vídeo, mecanismos modernos de busca ou
inteligência artificial disponível a qualquer pessoa.
Hoje alguém interessado em reencarnação, mediunidade ou vida
depois da morte pode encontrar milhares de vídeos e textos em poucos segundos —
espíritas ou não.
Isso significa que o Centro Espírita deixou de possuir quase
exclusivamente a função de oferecer acesso ao conhecimento.
Seu desafio talvez seja cada vez mais ajudar a selecionar,
contextualizar, aprofundar e transformar informação em conhecimento útil para a
vida.
Também mudou a relação das pessoas com instituições.
Há maior mobilidade, menor fidelidade institucional e
inúmeras possibilidades de participação sem presença física. Especialmente
entre os mais jovens, participar de uma organização simplesmente porque “sempre
foi assim” tende a exercer menor poder de atração.
Nesse ambiente, preservar a essência exige, paradoxalmente,
capacidade de mudança.
A inteligência artificial nos obriga novamente a rever tudo
Estamos diante de uma transformação talvez maior do que
aquela que motivou a discussão sobre reengenharia nos anos 1990.
A inteligência artificial começa a alterar pesquisa,
educação, comunicação, administração, produção de conteúdo e organização do
conhecimento.
No movimento espírita ela poderá auxiliar na localização de
textos, comparação de obras, organização de bibliotecas, preparação de
materiais didáticos, gestão administrativa, financeira, comunicação, pesquisas,
postagens para as redes sociais e muitas outras atividades.
Entretanto, seria um erro simplesmente acrescentar IA ao que
já fazemos.
Antes de perguntar “Onde podemos usar inteligência
artificial?”, talvez seja mais importante perguntar:
“Como organizaríamos este trabalho hoje se ele ainda não existisse?”
Essa é, essencialmente, a velha pergunta da reengenharia. E continua atual.
Precisamos aprender a abandonar também
As instituições costumam ter facilidade para criar
atividades e enorme dificuldade para muda-las ou encerrá-las.
- Criamos uma reunião.
- Depois outra.
- Criamos um departamento.
- Uma campanha.
- Um boletim.
- Um evento anual.
- Uma comissão.
Passam-se décadas e quase tudo continua existindo.
Há sempre alguém afetivamente ligado à atividade, uma
história respeitável ou o conhecido argumento: “Sempre fizemos assim”, ou “Em
time que está ganhando não se mexe”.
Mas organizações possuem recursos limitados, especialmente
aquelas sustentadas por voluntários.
Manter uma atividade de pouco resultado também possui um
custo: ocupa salas, horários, energia, dirigentes e trabalhadores que poderiam
estar contribuindo em outras frentes.
Reengenharia também significa ter serenidade para reconhecer
que algo cumpriu sua missão.
Encerrar uma atividade não significa desvalorizar quem a
criou. Pode significar exatamente o contrário: honrar seu propósito, permitindo
que o esforço se adapte às novas necessidades.
Medir para aprender, não para competir
Outra mudança necessária está relacionada à avaliação dos
resultados.
No ambiente espírita existe, compreensivelmente, certa
resistência a indicadores, números e técnicas administrativas. Teme-se
transformar a Casa Espírita em empresa.
O risco existe quando os instrumentos não estão integrados aos
objetivos, ou simplesmente não têm uso prático.
Uma instituição pode perguntar quantas pessoas chegaram,
quantas permaneceram, quantas iniciaram estudos, quais atividades apresentam
maior ou menor participação, quais necessidades estão surgindo, quantos jovens
se aproximam ou se afastam e o que os trabalhadores consideram necessário
melhorar.
Essas informações medem o funcionamento da instituição. E
podem revelar fatos que nossa percepção pessoal não consegue enxergar.
Uma casa que não procura saber os efeitos do próprio
trabalho corre o risco de confundir esforço com resultado. Ambos são
importantes, mas não são a mesma coisa.
Uma Casa Espírita que aprende
No texto antigo havia uma frase que considero ainda válida:
“Todos que trabalham em uma organização precisam
aprender a estar constantemente aprendendo.”
Talvez hoje possamos ampliá-la.
Uma Casa Espírita também precisa aprender.
Aprender com seus trabalhadores.
Com seus frequentadores.
Com aqueles que chegaram e permaneceram.
E, particularmente, com aqueles que foram embora.
Aprender com os jovens.
Com as transformações sociais.
Com os erros.
Com as experiências de outras instituições.
Com as pesquisas.
Com a ciência e com a tecnologia, quando possam oferecer
instrumentos úteis.
Isso não diminui a Doutrina. Ao contrário: pode contribuir para que os meios empregados estejam cada vez mais à altura da mensagem que pretendemos transmitir.
Trinta e três anos depois
Ao reler aquele artigo de 1993, chama-me atenção uma
constatação.
Muitas das ferramentas que imaginávamos necessárias foram
criadas.
Computadores ficaram acessíveis. Surgiu a internet. As
comunicações se tornaram instantâneas. Bibliotecas inteiras passaram a caber em
um telefone. Reuniões podem reunir pessoas de diferentes países. Chegamos à
inteligência artificial.
Mudamos enormemente os instrumentos. Mas talvez tenhamos
mudado menos a estrutura mental com que organizamos nossas atividades.
É relativamente fácil incorporar tecnologia. Muito mais
difícil é reconsiderar aquilo que fazemos há décadas.
Por isso, talvez a antiga palavra “reengenharia” ainda possa
prestar algum serviço ao movimento espírita.
Não como técnica administrativa da moda. Não como proposta
de ruptura. E certamente não como modificação da Doutrina.
Mas como atitude permanente de reflexão. Preservar aquilo
que é essencial. Questionar aquilo que é apenas habitual. Aperfeiçoar aquilo
que continua necessário. Criar aquilo que passou a ser possível. Rever quais são as necessidades de todos os envolvidos. O que desejamos para o futuro de cada um que passe pela nossa casa?
É preciso ter coragem de abandonar aquilo que deixou de cumprir
adequadamente sua finalidade. Precisamos rever até se a finalidade anterior não precisa ser revista.
Em 1993 escrevi que não bastava realizar um trabalho; era
preciso manter aceso o desejo constante de fazê-lo melhor.
Trinta e três anos depois, acrescentaria apenas uma
pergunta:
Antes de procurar fazer melhor aquilo que fazemos, não
seria prudente perguntar se é realmente aquilo que deveríamos continuar
fazendo?
Talvez essa seja a verdadeira reengenharia de que ainda
precisamos.
Este artigo retoma e atualiza reflexões apresentadas pelo
autor em “A reengenharia no movimento espírita”, publicado originalmente no
jornal O Dirigente Espírita em 1993.






